Contabilidade de Carbono em Transformação: O Debate que Pode Redefinir o Futuro Sustentável
- Felipe Cunha

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
A discussão sobre como medir e contabilizar as emissões de carbono ganhou novo fôlego com a iniciativa Carbon Measures, lançada na COP30 por gigantes como ExxonMobil, Bayer, Santander e Vale. O grupo questiona a precisão do atual padrão global, o GHG Protocol, usado há quase três décadas, e propõe uma abordagem inovadora: transformar cada produto em portador de sua própria pegada de carbono, permitindo comparações diretas entre itens como aço, petróleo e alimentos.
O modelo atual enfrenta críticas por depender fortemente de estimativas, especialmente no chamado escopo 3, que abrange emissões indiretas de fornecedores e consumidores. Esse escopo representa a maior parte da pegada de carbono das empresas, mas é o mais difícil de medir com precisão. A Carbon Measures defende que uma contabilidade mais granular e vinculada a produtos pode aumentar a transparência e estimular a demanda por soluções de baixo carbono.

A proposta se inspira em conceitos de contabilidade financeira, funcionando como um “imposto sobre valor agregado” do carbono. A cada etapa da cadeia produtiva, o passivo de carbono seria transferido junto com o produto, evitando duplicidades e criando uma lógica rastreável. Essa ideia, conhecida como E-liability, foi desenvolvida por acadêmicos de Harvard e Oxford e já recebeu reconhecimento como inovação em gestão.
Apesar do potencial, especialistas alertam para desafios operacionais significativos. Setores como o agronegócio, altamente dependentes de variáveis ambientais, enfrentariam dificuldades em padronizar dados confiáveis. Além disso, há receios de que a coexistência de múltiplos padrões fragmente informações e aumente os custos da transição energética.
Outro ponto polêmico é a redistribuição da responsabilidade climática. No novo modelo, as emissões geradas pelo consumo final de combustíveis fósseis seriam transferidas ao consumidor, reduzindo o peso no inventário das petroleiras. Críticos afirmam que isso pode desviar o foco das metas de descarbonização e enfraquecer a responsabilização das grandes corporações.
Ainda em fase inicial, a Carbon Measures planeja lançar metodologias em dois anos e expandir para 100 empresas em até sete anos. O debate, no entanto, já evidencia uma questão central: como equilibrar precisão, transparência e viabilidade prática na contabilidade de carbono, sem perder de vista a urgência da ação climática.




Comentários